Cria de Madureira e apaixonado pelo Império Serrano, músico se tornou um dos maiores compositores de sua geração

Arlindo Cruz morre aos 66 anos no Rio de Janeiro

O cantor e compositor Arlindo Cruz morreu nesta sexta-feira, 8 de agosto, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. A notícia foi confirmada pelo assessor de seu filho, Arlindinho, ao Estadão, e posteriormente divulgada nas redes sociais do artista.

Consequências do AVC marcaram os últimos anos

Desde o Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido em março de 2017, Arlindo passou a conviver com sequelas severas. O episódio, que ocorreu enquanto ele tomava banho em casa, comprometeu sua fala e seus movimentos.

Como resultado, o sambista passou 15 meses internado, muitos deles na UTI. Durante esse período, ele se submeteu a 14 cirurgias — cinco delas na cabeça — e ainda enfrentou uma embolia pulmonar.

Estado de saúde oscilava entre internações e breves recuperações

Ao longo dos anos seguintes, Arlindo viveu uma rotina instável. Em julho de 2023, seu quadro clínico piorou após uma pneumonia. Ele foi internado na Casa de Saúde São José, no bairro Humaitá, e ficou sob cuidados intensivos. Além disso, enfrentou uma caxumba bacteriana, que exigiu quase um mês de internação.

No ano seguinte, ele voltou ao hospital para tratar infecções respiratórias e urinárias. Em seguida, passou por quatro extrações dentárias em ambiente hospitalar.

Em abril de 2025, Arlindo foi novamente internado por causa de uma nova pneumonia. Embora tenha recebido alta em junho, após quase 50 dias, retornou poucos dias depois com agravamento do quadro.

Bactéria resistente e última internação

Segundo Babi Cruz, sua esposa, Arlindo enfrentava uma bactéria resistente. “Foram mais de 30 pneumonias. A gente acreditava que ele superaria mais essa”, afirmou ela, com esperança. No entanto, mesmo com o otimismo da família, ele parou de responder a estímulos. Arlindo não resistiu e morreu durante a última internação.

Desfile marcante e polêmica familiar

Mesmo debilitado, Arlindo foi homenageado em 2023 como enredo da escola Império Serrano. Com liberação médica e apoio da família, desfilou no último carro alegórico, ao lado da esposa, dos filhos e de amigos como Regina Casé e Marcelo D2. Ainda assim, a escola acabou rebaixada para o grupo de acesso.

Logo após o carnaval, Babi Cruz anunciou um novo relacionamento com André Caetano, seu ex-coordenador de campanha à Alerj. A revelação gerou controvérsia nas redes sociais, já que Babi continuava casada oficialmente com Arlindo. Como resposta, ela publicou uma nota pública para esclarecer a situação.

Raízes no samba e influência do Cacique de Ramos

Nascido em 1958 e criado em Madureira, Arlindo cresceu cercado pela música. Seu pai, músico amador, foi sua primeira influência. Ainda na adolescência, ele começou a tocar em rodas de samba promovidas por Candeia, uma das figuras mais importantes do gênero.

Na década de 1970, Arlindo participou da criação da icônica roda de samba do Cacique de Ramos, ao lado de nomes como Jorge Aragão, Almir Guineto e Sombrinha. Não por acaso, Beth Carvalho se encantou pelo grupo e levou suas composições para os estúdios, dando visibilidade nacional àquele movimento.

Fundo de Quintal e início da carreira solo

Nos anos 1980, Arlindo integrou o grupo Fundo de Quintal, ao lado de Bira Presidente, Ubirany e outros nomes históricos. Ele permaneceu no grupo até o início dos anos 1990, quando seguiu em carreira solo.

Durante essa nova fase, formou uma das duplas mais produtivas do samba com Sombrinha. Juntos, criaram clássicos como O Show Tem Que Continuar e Alto Lá, em parceria com Zeca Pagodinho. Com Zeca, Arlindo também compôs sucessos como Bagaço da Laranja, Dor de Amor e Camarão que Dorme a Onda Leva.

Composições gravadas por grandes nomes

Além de seus próprios sucessos, Arlindo teve suas músicas gravadas por intérpretes como Beth Carvalho, Alcione, Elza Soares, Maria Rita e Diogo Nogueira. Em 2007, Maria Rita incluiu seis de suas músicas no álbum Samba Meu, incluindo Tá Perdoado e O Que é o Amor?

Paralelamente, Arlindo também brilhou como compositor de sambas-enredo. Escreveu para escolas como Império Serrano, Vila Isabel e Grande Rio, consolidando sua presença tanto no samba tradicional quanto no universo carnavalesco.

Últimos projetos e destaque na televisão

Pouco antes de sofrer o AVC, Arlindo lançou, ao lado do filho Arlindinho, o álbum Dois Arlindos, com músicas como Bom Aprendiz e Pais e Filhos. Entre 2011 e 2017, também se destacou na televisão com participações frequentes no programa Esquenta, da TV Globo, apresentado por Regina Casé.

Revelações sobre a vida pessoal e legado literário

Em 2022, Babi Cruz revelou em entrevista que Arlindo teve contato com drogas ainda na adolescência. Segundo ela, o problema não se restringia ao ambiente do samba, mas também às escolas onde ele estudou.

Apesar das dificuldades, o legado de Arlindo Cruz foi eternizado. Em junho de 2025, durante a Bienal do Livro do Rio, foi lançada sua biografia, O Sambista Perfeito – Arlindo Cruz (Editora Malê), escrita por Marcos Salles. Conforme o autor, o músico compôs mais de 700 canções.

Na ocasião, Babi se emocionou: “Tive muito medo desse livro não ficar pronto com ele aqui pertinho. Só Deus sabe o tamanho dessa importância”.

Fonte: Morre Arlindo Cruz, compositor que redefiniu o samba, aos 66 anos; relembre trajetória