Com quase 34 milhões de visualizações em apenas cinco dias, o vídeo Adultização, produzido pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, ampliou significativamente o debate sobre a segurança de crianças e adolescentes na internet. A produção de 50 minutos denuncia criadores de conteúdo que exploram menores e exige das plataformas digitais mais responsabilidade na moderação de conteúdos sensíveis.
Investigação revela falhas graves no algoritmo
Felca, de 27 anos, criou um perfil falso e passou a interagir com fotos de crianças em poses sugestivas. Pouco tempo depois, o algoritmo do Instagram começou a recomendar conteúdos cada vez mais sexualizados, evidenciando como a plataforma pode, de forma alarmante, facilitar conexões entre pedófilos.
Esse experimento chocante trouxe à tona casos como o do influenciador Hytalo Santos, que, com mais de 20 milhões de seguidores, publicava vídeos de adolescentes dançando de maneira sensual. Como resultado da repercussão, a Justiça da Paraíba suspendeu seus perfis e o proibiu de manter contato com menores.
Repercussão política e mobilização no Congresso
A denúncia rapidamente ultrapassou as redes sociais e chegou ao Congresso Nacional, unindo parlamentares de diferentes espectros ideológicos. Deputados e senadores apresentaram projetos de lei para reforçar o combate à exploração de menores online.
O partido Republicanos, por exemplo, propôs a criação da chamada “Lei Felca”, que prevê penas mais severas e a remoção imediata de conteúdos abusivos. Ao mesmo tempo, figuras importantes do governo, como a primeira-dama Janja Lula da Silva e a ministra Gleisi Hoffmann, defenderam a regulamentação urgente das redes sociais. Já o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que um novo projeto de lei será enviado nos próximos dias.
Especialistas defendem responsabilização das plataformas
Para a advogada Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta, este é o momento ideal para avançar com o PL 2.628/2020, que responsabiliza as plataformas digitais e exige verificação real de idade dos usuários. Segundo ela, a tecnologia já existe — falta apenas vontade política e pressão social para implementá-la.
Outros países, como Austrália, Reino Unido e França, já adotaram essas práticas. Nos Estados Unidos, diversas leis estaduais exigem comprovação documental para acessar conteúdos adultos — uma tendência que o Brasil também precisa acompanhar.
O que é adultização — e por que isso preocupa tanto
Luciana Temer define adultização como a imposição de comportamentos e padrões adultos sobre crianças, algo que viola seu processo natural de desenvolvimento. Embora não seja um fenômeno novo, as redes sociais amplificam exponencialmente seu alcance e sua velocidade. A advogada destaca que as consequências são graves e permanentes, pois o conteúdo publicado permanece acessível por tempo indefinido.
Apesar de organizações como o Instituto Liberta e a Fundação Abrinq denunciarem o problema há anos, o vídeo de Felca provocou uma reação sem precedentes. “Ele conseguiu unir vozes opostas no Congresso, gerando um senso de urgência que não víamos antes”, observa Temer.
Pressão sobre as plataformas digitais aumenta
Segundo especialistas, as empresas de tecnologia falham na moderação porque, hoje, não são legalmente obrigadas a agir com rigor. Além disso, vídeos com crianças muitas vezes geram lucros significativos, tanto para os criadores quanto para as próprias plataformas.
Diante desse cenário, as propostas legislativas buscam estabelecer regras mais rígidas, além de aplicar penalidades claras para quem explorar menores.
Luciana Temer reforça: “Isso não é censura — é proteção. Estamos falando do direito das crianças a um desenvolvimento seguro e saudável. A tecnologia já permite isso. O que falta é ação”.
